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o sopro na argila Hugo Almeida (prefácio do livro de ensaios de mesmo título organizado por H.A. e publicado pela Nankin Editorial em 2004)    Nada em Osman Lins é gratuito. Sua narrativa palimpséstica, dialética, polifônica esconde um sem-número de camadas de significados e demanda uma cuidadosa, atenta leitura. Às vezes vagarosa, parágrafo a parágrafo, frase a frase, até palavra por palavra. Há, oculta, latente, uma infinidade de sugestões no texto, com freqüência ambíguas, diversas ou contrárias ao que reluz na superfície. A cada releitura, seus livros oferecem surpresas e revelações. Não se pode concordar, no entanto, com o equivocado conceito de que Osman Lins tem sido vítima - de ser autor difícil, hermético -, como ainda hoje, 26 anos após sua morte, o leitor médio, críticos e até editores parecem pensar. Esgotada, boa parte de seus livros há anos aguarda reedição. A ética e a estética de Osman Lins, um dos maiores e mais dignos escritores do país, têm feito enorme falta às novas gerações.    Filho de um alfaiate de nome grego, Teófanes (algo como manifestação divina), e de uma jovem que jamais iria conhecer, Maria da Paz, Osman Lins nasceu em Vitória de Santo Antão, Pernambuco, em 5 de julho de 1924, e ficou órfão aos 16 dias. "Morreu aquela garota para que eu nascesse. Não podia fazer de minha vida uma trouxa, um papel servido, jogá-la por aí. Nunca vi um retrato seu." A busca de um rosto (e da Paz) marcou sua obra.    Na luta de guerreiro solitário iniciada na adolescência escreveu no início livros quase tradicionais, mas vigorosos: os romances O visitante (1955) e O fiel e a pedra (1961), e Os gestos (contos, 1957). Ainda jovem e já vivendo em São Paulo, publicou ensaios combativos e apaixonados, como Guerra sem testemunhas, aos 45 anos, e chegou a trabalhos inovadores e definitivos, como as narrativas de Nove, novena, aos 42, e os romances Avalovara, aos 49, e A rainha dos cárceres da Grécia, aos 52 anos. Isso sem contar sua obra de dramaturgo, como Lisbela e o prisioneiro, encenada pela primeira vez em 1961, pela Cia. Tônia-Celi-Autran, e adaptada para o cinema por Guel Arraes em 2003. Osman Lins morou dos 16 aos 37 anos no Recife, onde foi estudar e trabalhar, publicou seus contos iniciais e ganhou os primeiros prêmios nacionais, entre eles o Fábio Prado, com O visitante, em 1954, no 4.º centenário de São Paulo. Após a mudança em 1962 para a capital paulista, passou a viver em contato direto com uma realidade mais ampla e generosa em contradições e desigualdades sociais.    Osman Lins concordaria com a "posição unilateral" de Roberto Schwarz: "As condições necessárias para fazer um escritor resumem-se em papel e tinta, alguns livros, e a experiência da vida moderna, à qual aliás não se escapa mesmo" ("Crise e literatura", Que horas são?). Para Schwarz, "uma vez compreendida e dominada, toda condição social negativa se transforma, ou pode se transformar, em força literária"... (idem). "Resistir às pressões, às forças destrutivas que ameaçam pulverizar o homem", segundo Osman Lins, sempre foi a função do escritor (Evangelho na taba, p. 162). "A liberdade de um escritor é a sua pobreza. Ele depende apenas de um lápis. Nem de papel ele necessita. Os muros das prisões estão cheios de palavras, de coisas escritas, de expressões humanas." (...) "A literatura é pobre, essa é a sua arma" (idem).    Seu último romance, A rainha dos cárceres da Grécia, saiu em 1976, quando Osman Lins publicou também sua tese de doutoramento em Letras, Lima Barreto e o espaço romanesco - apenas três anos após Avalovara, seu romance mais denso, conhecido e admirado. O escritor já se havia aposentado como bancário e se afastado do ensino superior. O melhor de sua energia, de seu tempo, era cada vez mais para a literatura. Morreu cedo, de câncer generalizado, dois anos depois, em 8 de julho de 1978, deixando inacabado o que seria seu quinto romance, A cabeça levada em triunfo.    Reconhecidamente original, Osman Lins não se considerava contudo escritor de vanguarda - sua formação se deu na leitura dos grandes romances tradicionais. Dizia só pensar em ficção, tinha como lema explorar. A máxima de um narrador de Avalovara - ... "toda a minha vida se concentra no ato de buscar...", síntese da arte do romance -, pode ser creditada ao autor, sem risco de engano. Fazia um "trabalho mais articulado sobre os problemas da estrutura romanesca e da construção de personagens", como afirmou a Les Nouvelles Littéraires, em 1975, ao afastar a comparação de sua literatura com a de Joyce, que "fez, sobretudo, uma exploração da palavra".    Nessa entrevista ("Não ofereço um Brasil mascarado", Evangelho na taba, p. 200), refutou o regionalismo, em nome de uma literatura cosmopolita. Noutra (ET, p. 202), disse: "As formas tradicionais de romance não me servem mais." Fiel à sua guerra, Osman Lins vencia um impasse e envolvia-se em outro a cada livro, voluntária pedra de Sísifo.    O escritor condenava a explicação exaustiva da obra pelo próprio autor e manteve-se coerente a esse princípio. Em sua última entrevista (ET, p. 268), afirmou: "Como são ridículos e patéticos os autores que passam a vida inteira explicando a própria obra." Entendia que esse papel cabe aos leitores. A tarefa está em curso.    Os livros publicados sobre Osman Lins no Brasil até 2003 eram cerca de dez, quase todos de mulheres, em geral mais sensíveis à sua obra. A maioria dessas ensaístas está presente com estudos novos neste Osman Lins: o sopro na argila, homenagem à memória do escritor nos 80 anos de seu nascimento.    Abre esta coletânea de textos sobre Osman Lins um saboroso depoimento de Lauro de Oliveira, ex-colega do escritor e amigo próximo, uma das pessoas a quem é dedicada a narrativa "Perdidos e achados", de Nove, novena. Valioso pelo que revela e pela autoria, "Osman Lins: ética na vida e na ficção" guarda um leve (intencional ou involutário) parentesco com o "Retábulo de Santa Joana Carolina" e outras histórias de Nove, novena. Em linguagem bonita e serena, Lauro de Oliveira, leal reflexo do amigo até no nome (OL/LO), recorda momentos significativos na vida e na construção da obra de Osman Lins e reafirma a íntegra personalidade do escritor.    Sandra Nitrini analisa um livro capital e quase sempre esquecido: Marinheiro de primeira viagem, espécie de porto-navio da obra de Osman Lins. O relato do então bolsista da Aliança Francesa em Paris como que registra uma chegada e nova partida da obra em progresso. "Numa cuidadosa linguagem literária e numa pensada arquitetura estrutural", escreve a autora do essencial Poéticas em confronto (1987), (...) "literalmente fragmentada, essa narrativa de viagem prenuncia a composição descontínua de Nove, novena e Avalovara e seu parentesco mais chegado à arte do retábulo e da pintura".    Em "O bicho-palavra produzindo fissuras", Ana Luisa Kaminski Kohn desenvolve curioso e original paralelo entre o trabalho da palavra e os insetos (e outros animais), na obra de Osman Lins, em "busca de um olhar orgânico e sensível sobre o mundo mecanizado da produção em massa".    Ana Luiza Andrade, autora de Osman Lins: crítica e criação (1987) e tradutora de Dialética do olhar: Walter Benjamin e o projeto das passagens (2002), escreveu para este volume "Reciclando o engenho: Osman Lins e as constelações de um gesto épico", uma densa e profunda leitura da obra osmaniana à luz do filósofo alemão. "Uma passagem do caos ao cosmos parece ocorrer de fato, quando Osman Lins escreve, cada vez que a palavra vem socorrer o escritor da escuridão caótica, e, exercendo seu feitiço, seja capaz de luta transformadora, em uma recriação de configurações elaboradas", constata Ana Luiza Andrade.    Ainda em vida, Osman Lins foi lido e admirado no Brasil e exterior. A professora e tradutora francesa Gaby Kirsch, desde 1985 no Brasil, estudou a recepção da obra do autor pela crítica de língua francesa e alemã. Em Paris, um crítico apresentou Avalovara como "o renascimento deslumbrante do romance, obra faustosa, uma festa do espírito, da sensibilidade e da sensação". Na Alemanha, as narrativas de Nove, novena foram consideradas por um crítico "peças de prosa sensoriais, densas e poéticas, que unem sutilmente precisão e imaginação".    Iná Camargo Costa, autora de A hora do teatro épico no Brasil (1996), destaca em "Teatro de Osman Lins: breve esquema" a posição singular da obra osmaniana na dramaturgia brasileira durante a ditadura militar, capítulo que - alerta a estudiosa - ainda espera inventário completo. Em "Osman Lins dramaturgo: no caminho para a história", Maria Teresa Dias aborda a trajetória do escritor, mais voltado para a narrativa, sem deixar de ser original e combativo também em suas peças. Teresa lembra, por exemplo, que em "Quem era Shirley Temple?", "... a sensibilidade crítica de Osman Lins, muito amadurecida desde a concepção da comédia romântica Lisbela e o prisioneiro, distingue-o do autor das grandes massas".    No ensaio "'Retábulo de Santa Joana Carolina', o palco na palavra", Marisa Balthasar Soares observa que "sob o jogo aparentemente polifônico na condução do leitor pelos quadros [da narrativa], 12 no total, o que lateja é a voz épica em exercício do aperspectivismo".    Marisa Simons, autora de As falas do silêncio em 'O fiel e a pedra' de Osman Lins (1999), escreve "'Pentágono de Hahn': o enigma geométrico de Osman Lins". Para Marisa, "obra-aberta", a narrativa de Nove, novena "faculta nossa leitura integradora da pessoa do leitor (e do seu contexto), ao texto".    A arquiteta brasiliense Adelaide Calhman nos traz um estudo à primeira vista insólito: "Literatura e arquitetura: o 'Retábulo de Santa Joana Carolina' e a Catedral de Brasília". Arquiteto da prosa, cultor de uma literatura espacial e pictórica, moderna e neobarroca, Osman Lins ficaria feliz com esse diálogo entre arquitetura e literatura tão bem demonstrado por Adelaide Calhaman.    "Avalovara: precisão e fantasia", de Modesto Carone, é o posfácio que o escritor e tradutor brasileiro escreveu para a edição alemã do romance de Osman Lins, em 1976. "Em termos gerais, o romance é dominado pelo contraste entre rigor e fantasia, aqui enlaçados numa aliança desconcertante", escreve Carone. "Pois o geometrismo da composição é justamente o recurso capaz de canalizar o vôo livre da imaginação." Segundo Modesto Carone, Avalovara "pode ser entendido como uma metáfora da criação e do conhecimento poético". Esse texto saiu pela primeira vez no Brasil em Literatura e sociedade n.º 6, publicação do Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP).    No estudo "Avalovara: a espacialização da narrativa", a gaúcha Leny da Silva Gomes levanta questões-chave e encontra respostas. Algumas: "Como se realiza a confluência de linguagens, como foi armado o romance, como foi ordenado o desconexo? Como a literatura, arte temporal, absorve a forma espacial, própria das artes plásticas?" Seu estudo desvenda partes e amplia o universo de Avalovara.    Em "'A dama e o unicórnio': exercícios de imaginação", a autora de Cabeças compostas - A personagem feminina na narrativa de Osman Lins (2000), Ermelinda Ferreira, tece um belo ensaio sobre o tapete do século 15, de autoria desconhecida, usado pelo romancista em Avalovara. "Filho de um alfaiate, Osman Lins tinha fascínio pela urdidura, pela trama dos fios, pela tepidez e textura dos tecidos, talvez pela fecundidade de significações que o ato de tecer pode produzir quando comparado ao gesto de escrever", afirma a ensaísta.    O ensaio "O mundo sem aspas", de José Paulo Paes (1926-1998), já publicado em Transleituras (Ática, 1995), abre a série de trabalhos deste volume sobre A rainha dos cárceres da Grécia, livro antes pouco estudado. José Paulo acentua que a última obra de Osman Lins "é, ao fim e ao cabo, uma ilustração e defesa da arte do romance, sem deixar de ser ao mesmo tempo uma sátira a certas pretensões da crítica ou hermenêutica literária".    "O caráter heróico das personagens expõe, através de Maria de França, a burocracia, que exclui toda e qualquer possibilidade de efetiva cidadania", observa a gaúcha Claudia Caimi em "Representação e autoritarismo em 'A rainha dos cárceres da Grécia'". Para ela, "o ato de narrar mutilado e alienado corresponde à impossibilidade de fala da alienação imposta pelas formas de opressão, próprias do autoritarismo brasileiro, e anuladoras da individualidade humana". É outro ensaio que enriquece o estudo do romance.    "O problema da relação entre indivíduo e liberdade ocupa amplo espaço em A rainha dos cárceres da Grécia, enunciado no título e veiculado pela estrutura e enredo, em que a ausência de liberdade mina todo o tecido social e narrativo", afirma em "Osman Lins: o escritor-leitor de 'A rainha dos cárceres da Grécia'" a mineira Maria do Carmo Lanna Figueiredo, autora de O romance de Lima Barreto e sua recepção (1995), no qual aborda também a intertextualidade no último romance osmaniano - a presença ali de personagens e trechos do autor de Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá.    O escritor Ronaldo Costa Fernandes, autor de O narrador do romance (1996) e co-autor de O imaginário da cidade (2000), escreve sobre "Espaço urbano em 'A rainha dos cárceres da Grécia'". Lembra que "a cidade do romance é uma cidade tão inventada quanto a Macondo de García Márquez, uma cidade que não está no mapa". E arremata: "O mapa da literatura é a mente do leitor, o mapa da cidade do romance é uma cidade internalizada. Deste ponto de vista, todas as cidades são fantasmagorias, projeções de sombras de cidades ditas reais."    No ensaio que fecha este volume, "Osman Lins - Jorge Luis Borges, encruzilhadas e bifurcações", capítulo de sua tese de doutorado, a argentina Graciela Cariello lembra que "Osman Lins era um leitor apaixonado, lúcido, crítico, instigante e, fundamentalmente, criativo". E acrescenta: "Tudo que ele lia virava literatura, toda sua escrita foi radicalmente leitura. A sua leitura de Borges foi, portanto, crítica e produtora de escritura." No entanto, observa, "o encontro de Osman Lins com a obra borgiana não foi pacífico. Aliás, nenhum dos encontros de Osman Lins com a cultura da sua época foi nem pacífico nem inocente."    Sem nem de longe querer esgotar a obra de Osman Lins, tarefa para sempre impossível, os estudiosos reunidos neste volume pretendem dividir e multiplicar a alegria de uma leitura enriquecedora. Estão empenhados em analisar, discutir e tornar mais conhecida a arte de um homem talentoso e tenaz que dedicou a vida à literatura e deixou sua marca. |