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Avalovara - A espiral e o quadrado Antonio Candido (6ª.ed. São Paulo. Companhia das Letras: 2005 (p.7-10)) Como num relato de Borges, o modelo deste livro seria um poema místico em latim, de que se conserva apenas a versão grega na hipotética Biblioteca Marciana de Veneza... O poema fornece o esqueleto de uma geometria rigorosa e oculta, que o Autor revela numa espécie de guia metalingüístico do leitor, e que dá à narrativa um movimento espiralado, sem começo nem fim quando tomado em si mesmo. O limite está no fato de a espiral ser contida num quadrado, que por sua vez se reparte em quadrados menores, cada um correspondendo a uma letra. O traçado da espiral vai tocando sucessivamente as letras, e cada uma destas corresponde a uma linha da narrativa, voltando periodicamente em segmentos cada vez maiores. As linhas são oito, e o seu desdobramento se traduz na história de um homem e das mulheres que amou: uma na Europa, uma em Recife e sobretudo uma, em São Paulo, que de certo modo recebe a experiência amorosa vivida com as anteriores. As duas primeiras seriam passado, mas funcionando como presente; a última é um presente que se forma a cada instante do passado. Toda a narrativa converge para a plenitude amorosa, numa espécie de gigantesca câmara lenta, que concentrasse o tempo no espaço limitado e no limitado instante em que a plenitude é buscada. O que desde logo prende em Avalovara é a poderosa coexistência da deliberação e da fantasia, do calculado e do imprevisto, tanto no plano quanto na execução de cada parte. Falando do relógio de Julius Heckethorn (uma das linhas da narrativa), o Autor diz que obedecia a “um esquema rigoroso”. E “sobre este rigor assenta a idéia de uma ordem do mundo”. Mas “como introduzir, então, na obra, o princípio de imprevisto e aleatório, inerente à vida?”. A execução do livro é a resposta, fascinante para o leitor, à medida que este vai experimentando a precisão geométrica do arcabouço, a minúcia implacável da descrição e a poesia livre que rompe a cada instante. SATOR AREPO TENET OPERA ROTAS é uma frase inventada por um escravo frígio de Pompéia, feita de cinco palavras, cada uma com cinco letras, que se pode ler igualmente nos dois sentidos, e em cuja composição entram apenas oito letras, que, distribuídas pelos quadrados menores, constituem as linhas narrativas. Nos vinte e cinco quadrados que formam o quadrado grande, onde se contém a espiral, as palavras se sobrepõem horizontalmente, mas também se estendem em colunas verticais, pois a frase pode ser lida indiferentemente da esquerda para a direita, da direita para a esquerda, de cima para baixo, de baixo para cima, em diversos rumos. Assim, na narrativa, o amor é visto do homem para a mulher, da mulher para o homem, do presente para o passado, do passado para o presente, daqui para ali, dali para aqui, numa reversibilidade vertiginosa que traz à baila a evocação da herma de Jano e chega a uma mulher que é também homem, para um homem que poderia eventualmente ser também mulher. As reversibilidades prosseguem ainda noutro plano, quando o Narrador se transforma periodicamente em Autor e a narrativa quebra a imagem do real, para apresentá-lo como fantasia composta. Neste romance, uma das linhas é precisamente a da consciência crítica entrando a cada instante pela série ficcional, denunciando o seu caráter fictício de empresa deliberada, igualmente reversível entre a representação do real e o caráter ilusionista da representação. Daí um livro que não tem medo de se apresentar como livro, como maquinismo montado, como não-realidade — mas do qual jorram o fascínio de uma vida que palpita, o traçado do mundo exterior e a surda potência das emoções. Nada mais significativo desta mistificação desmistificadora do que o fato de um personagem não ter nome. Trata-se da terceira mulher, a mais importante, representada no entanto por um signo meramente visual: ‘O’. Abel amou/ama Roos, amou/ ama Cecília e finalmente ama/amou ‘O’. Ela é espantosamente carnal e viva para o leitor; mas é um ente mental do escritor, uma peça do jogo palindrômico, representada simbolicamente pelo círculo fechado onde tudo começa e acaba, com seu alvo fincado no meio. As pontas da espiral, desgarradas no infinito, unem-se aqui para a consecução de uma plenitude que é toda a busca do livro. Romance? Poesia? Tratado da narrativa? Visão do mundo? No universo sem gêneros literários da literatura contemporânea, o livro de Osman Lins se situa numa ambigüidade ilimitada. A começar pela linguagem, que varia também com o movimento da espiral, indo da simplicidade das expressões até a paráfrase do Cântico dos Cânticos, do tom de arrolamento metódico aos vôos largos da poesia. Para se encontrar nessa ambigüidade, o leitor deveria munir-se de um sentimento duplo, que poderia ser chamado de sentimento do todo ou da espiral, e sentimento da parte, ou dos quadrados. Há uma visão do todo, que se desvenda lentamente, custando a ganhar forma em nosso espírito. Não faz mal, porque o livro parece feito para ser lido também nas suas partes. O sentimento da espiral leva a buscar a concatenação e o contraponto dos fios, ao longo do tempo. Mas o sentimento dos quadrados leva a tomar cada parte como um todo, bastante a si mesma e fora do tempo, capaz de produzir um impacto completo de leitura. Daí o caráter poético e geométrico do livro, que é uno e múltiplo, que carreia elementos narrativos do fundo dos séculos, mas também se passa nalguns instantes, num quarto fechado, sobre um tapete que se perde a cada momento no rumo do fantástico. Avalovara representa na literatura brasileira atual um momento de decisiva modernidade, porque o Autor (como diz a certa altura) exerce “uma vigilância constante sobre o seu romance, integrando-o num rigor só outorgado, via de regra, a algumas formas poéticas”. |