O fiel e a pedra
Massaud Moisés
(São Paulo, Melhoramentos: 1974, p.13-17)


   Na trajetória de Osman Lins, O Fiel e a Pedra representa um autêntico divisor de águas. A primeira fase, iniciada em 1955 com o romance O Visitante e prolongada com Os Gestos, livro de contos aparecido em 1957, caracterizava-se por um psicologismo que emergia de situações cotidianas não raro vizinhas do patético. Efetivamente, a narrativa longa e as menores testemunhavam uma mundividência orientada pelo signo da comoção e por uma gravidade lírica, compassiva e despida de humor: a seriedade com que já encarava a Vida e a Literatura, entrelaçadas e confundidas, obrigava o escritor a repudiar, desde o começo, o sorriso ou o ato inconseqüente. Tal carência de humor, resultante da importância que divisava no seu ofício de arquitetar histórias, permaneceria nas obras posteriores das forças-motrizes que lhe compõem a visão do mundo.

   A segunda fase assinala o desenvolvimento de uma propensão aflorada nas obras anteriores: experimentalismo em matéria de técnica ficcional e esteticismo, vale dizer, preponderância dos aspectos estéticos sobre os éticos. Nove, Novena, contos (1966), e Avalovara, romance (1973), exibem, simetricamente aos textos inaugurais, a maneira mais recente do escritor, de que a incursão pelo relato de viagens (Marinheiro de Primeira Viagem, 1963), constitui eloqüente indício.

   Situado no centro geométrico das duas etapas, O Fiel e a Pedra ergue-se como a obra-base no percurso do ficcionista, precisamente porque alcança o justo e alto equilíbrio entre as duas tendências, a introspectiva e a experimentalista. Equilíbrio procurado na fase inicial, em meio às naturais hesitações, influências e certezas intuídas, e abalado quando a atração pela forma ou pelo romance como metalinguagem que se auto-explora, autojustifica e autodevora, se instalou no espaço imaginário do escritor. O Fiel e a Pedra é o romance de uma tensão interna e externa que não amortece em momento nenhum, da primeira à última palavra, de maneira que as soluções lingüísticas decorrem, por necessidade, das situações focalizadas, e estas, reciprocamente, geram a linguagem adequada à sua representação. Romance de tensão dramática e metafísica, a primeira, ao nível da problemática social, encarnada por Bernardo e Teresa em luta com Nestor e os seus capangas; a segunda, ao nível cósmico, em que se joga a existência, não de um indivíduo encurralado pelo ódio e o medo, mas no gênero humano a debater-se com as forças indômitas que despertou ou pôs em movimento, - do ser humano em face da Natureza, dos semelhantes e, sobretudo, de si próprio, seu inimigo maior.

   De onde o tom de saga, lenda, ou canção de gesta, espécie de Eneida sertaneja protagonizada por um herói-fruto-da-terra, semideus a enfrentar homens manhosos, que se atira no encalço do fatum pré-traçado nas veias e na memória: os obstáculos com que se depara assumem tal conotação simbólica, arquetípica, que o próprio gado, por instantes fulcro do seu atrito com Nestor, se transfigura miticamente. Um halo poético envolve tudo, seres e paisagens; inclusive os maus, os antagonistas empedernidos, se movem num plano mítico, sujeitos pelos deuses a cumprir até o fim seu destino.

   Todavia, essa grandeza não se mostra à superfície: em razão de o romancista expurgar do texto a carpintaria que o sustenta, numa faina paciente de vitralista, o leitor sequioso de intriga e passatempo inevitavelmente se frustra. Romance escrito para ser degustado aos poucos, num lendo processo de avaliação e empatia, O Fiel e a Pedra esconde os seus frutos de ouro numa folhagem por sua vez carregada de reverberação e sentido. Na realidade, a significação maior do drama vivido por Bernardo como que guardam um significado oculto, apenas visível ao olhar atento às minúcias que se vão acumulando mansamente no fluxo da intriga.

   A história, passada em zona rural nordestina, tem por núcleo as relações conflituosas entre um despótico senhor de terras, Nestor, e um forasteiro íntegro e altivo, Bernardo. Ao escolher uma região e uma situação presentes no romance dos anos 30, Osman Lins corria o risco de pervagar trilhas conhecidas ou pisar terrenos cansativamente visitados. Não obstante, como o leitor verificará por conta própria, soube contorná-lo airosamente e ainda criar uma obra-prima. A ficção regionalista estafara-se pelo abuso e pela reincidência no pitoresco e no folclórico, ou seja, na cor local e nas facilidades do exotismo. Por certo, um ficcionista desejoso de perquirir as entranhas das situações dramáticas não poderia satisfazer-se com esse regionalismo cartão-postal. Mas defrontava-se com um canto de sereia não menos aliciante: tombar no psicologismo esquemático, preconcebido, ao conferir a homens rudes uma vida mental específica de pessoas culturalmente diferenciadas. Num caso ou noutro, o resultado seria mofino: cônscio disso, o romancista procurou guiar a obra por entre os dois escolhos e acabou realizando a feliz união do profundo com o epidérmico, do eterno com o efêmero, do imanente com o transcendente.

   A tensão dialética se concretiza no diálogo entre as personagens e a Natureza; o recorte abissal dos protagonistas, efetuado com indisfarçável economia de meios, reflete-se na descrição da paisagem, retratada com fidelidade e senso de medida. Eqüidistante, sopesando cuidadosamente o valor de cada pólo dramático, o ficcionista defende-se de atribuir à paisagem função condicionante; embora não lhe negue a força opressiva, desloca o eixo da ação para o herói, para o ser humano; não é o cenário que lhe atrai a atenção, mas o conflito, não a geografia, mas homem. O propósito implícito é sondar o homem, ou antes, o Homem perante a adversidade do contexto natural e dos semelhantes por ele abrutalhados. O problema humano é que se levanta, de molde a tornar a Natureza o espaço acidental em que o drama se organiza, se desdobra e deflagra tragicamente.

   Desse modo, sem recorrer aos expedientes narrativos utilizados na década de 30, Osman Lins atinge a feitura de um romance regionalista de indiscutível universalidade. A trama romanesca, estruturada com a simplicidade apolínea das obras acabadas, arma-se ao redor do Bem e do Mal, aquele representado por Bernardo, este, por Nestor. No final, o Bem vence em toda a extensão, mas vence de acordo com lei dos direitos superiores do Homem, não com a dos mais fortes. Prevalece o mel da bondade humana sobre a sua animalesca ausência. E sem que se possa entrever nesse quadro um idealismo panglossiano ou utopia cega, impõe-se o poder do caráter, no qual os impulsos poéticos desempenham relevante papel. Vence, pois, a bondade humana e um sentido poético da existência.

   Romance-poema, tal a pulsação comovida e o intenso lirismo que permeia o enredo, qualquer de suas páginas ressuma de poesia: a sua vitalidade fora do comum promana do consórcio íntimo entre o narrativo e o poético, da transfiguração constante dos fatos em atmosferas líricas, como se a “guerra” de Bernardo e Nestor fosse recordada por entre as névoas da reminiscência ou as lágrimas da saudade, ou entrevista na luz coada de vitrais penumbrentos.

   Nesse ambiente vago, um homem, Bernardo, busca a sua identidade na reconstrução do seu “eu” estilhaçado. A auto-sondagem processa-se discretamente, pausadamente, e o ficcionista observa as reservas do protagonista. De onde o drama não assomar inteiro à tona da consciência, mas em pedaços, como restos de naufrágio a boiar no dorso das vagas. É que O Fiel e a Pedra não se limita a ser o simples relato de acontecimentos motivados por uma questão de terras e de orgulho malferido: verdadeiramente, objetivamente patentear, nos embates de dois seres plenos de amor-próprio, a imagem total do homem ansioso de reconquistar a perdida ou dispersa unidade essencial. Assim, com retratar o desespero de um ser que (re)constrói a sua essência com os retalhos da sua existência, o romance bordeja a problemática existencialista.

   E, desde o primeiro momento, um clima de tragédia domina a narrativa, adensa-se progressivamente e chega ao clímax no derradeiro capítulo, por si só uma peça antológica. Para ali confluem as linhas de força trágicas que se vinham avolumando ao longo da peregrinação de Bernardo e Teresa no rumo da terra da promissão ou do esquecimento e renúncia. Prova de fogo para qualquer escritor, as páginas finais mostram um ficcionista a reunir naquele trecho todas as suas virtualidades estéticas. Presenciamos uma cena de tragédia grega ou shakespeareana, em que o pathos transbordante mal e mal se descarrega na morte, por meio de que o Bem exerce o seu equívoco domínio.

   Nesse “reino” de angústia, vivem emparedados, suspensos e resignados, Bernardo e Teresa: ela, fadada a um tal homem, toda feita de energia moral e beleza interior, iluminada por uma chama de esperança, sobrançaria e determinação, apesar de um sofrimento aterrador que o tempo não diminui. Mais sombra que ser físico, contorno diáfano, imponderável e frágil, nela o marido encontra, ironicamente, o apoio para evitar a catástrofe que se aproxima e resistir ao assédio humilhante de Nestor e os seus apaniguados. Ele, vítima ou depositário de um caráter privilegiado que o eleva acima do condicionamento social e natural, vive cercado por entidades malignas que o repelem com a um corpo estranho: o ódio e a morte. De ambos se livra graças ao imenso orgulho e ao “furor” olímpico, amparados no amor plácido e confiante de Teresa. Estofo de herói no sentido preciso do vocábulo, nele a Literatura Brasileira ganha mais uma figura emblemática, ao lado de um Capitão Vitorino, de Fogo Morto, e de um Rodrigo Cambará, de O Tempo e o Vento, por sinal duas obras de índole regionalista.

   Uma sinopse de O Fiel e a Pedra que se pretendesse completa teria de referir-se à linguagem em que o romance está vazado. Ao contrário de certa moda para escrever desleixado, a pretexto de abrigar coloquialismos e tipismos, Osman Lins redige limpo, terso, combinando os nossos hábitos lingüísticos com as matrizes mais lídimas do Idioma: o seu estilo acompanha, desde a obra de estréia, a gravidade com que o escritor se entrega à sua missão. Pesquisa afanosa da expressão exata, sempre na esteira do que a Língua tem alcançado de melhor, riqueza metafórica, de forma que a cada aspecto corresponde um dado torneio frásico. Acrescente-se-lhe o rigoroso travejamento dos capítulos, a proporção harmônica das partes da narrativa, a intuição da temperatura peculiar a cada cena ou episódio, e teremos arrematado o esboço crítico dessa genuína obra-prima.    Romance denso, maduro, resistiu ao vendaval demolidor do novo-romance francês e à erosão do tempo e das novidades embriagantes; passados cerca de treze anos do seu lançamento, creio ainda procedente o juízo que externei em artigo de abril de 1962: tudo indica que temos em mãos um romance capaz de ficar e mesmo de marcar a ficção brasileira dos últimos dez anos. Com efeito, a década de 60, nada pobre em romances de superior qualidade, decerto ficará assinalada, dentre outros, por O Fiel e a Pedra.