Autor Participante
(Correio da Manhã – Rio- 17.09.1976)

- Realizou você, em seu novo livro, Nove, Novena, experiências que em sendo indicadas como revolucionárias na literatura. Trata-se por conseguinte, de uma obra de leitura difícil ou exigente. Ora, levando em conta as atuais condições sociais do Brasil, notadamente seu baixo índice de instrução, não acha que um livro dessa natureza acentua a dissociação entre autor e público?

- Não. Só há uma dissociação que um autor deve temer: é a dissociação entre si próprio e o real. E o caminho certo para essa dissociação é precisamente o academismo: o uso de fórmulas estereotipadas, que não o ajudam a captar o real e a nada conduzem. Em literatura, toda conquista árdua atinge o público, mais cedo ou mais tarde. E são conquistas que enriquecem o leitor, não os caminhos já conhecidos.

- Um livro mais fácil, realizado dentro de “caminhos já conhecidos”, tem muito mais probabilidades de atingir o público que um livro inovador como o seu. Acha que isso não tem importância?

- Do ponto de vista comercial, sim. Não do ponto de vista literário; nem do ponto de vista da responsabilidade do escritor. Em todas as fases de minha vida, o livro que escrevi foi sempre o melhor que me era dado realizar no momento. Se este último, Nove, Novena, abrange mais áreas de pesquisa, é que meu espírito permite agora essa aventura. Caso sua penetração seja rápida, tanto melhor. Jamais desdenhei a apreciação do público. Mas, se por acaso, essa penetração for mais lenta, não tem importância, como escritor, tenho de arrostar esse risco.